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Conexão Qatar #7: A Despedida

20 abr
Já faz três meses que eu voltei para o Brasil, e de alguma forma , ainda olho para a janela e sinto , escuto e me lembro, deliciosamente, de tudo que vivi no Qatar.  Digo isso, pelo motivo de ter sido uma rápida viagem. Foram apenas dez dias, e na maioria das vezes, dez dias comuns não mudam nada na sua vida.

Esta é a minha última postagem sobre o Qatar e dessa vez não falarei mais sobre a minha viagem, me desculpem, pois faltou muita coisa para descrever junto de vocês, leitores. Garanto que todos deveriam viajar para o Oriente Médio, mas não apenas para lazer, mas sim, para o verdadeiro conhecimento do que é esta cultura, que por vezes, banalizamos de um jeito tão medíocre, tão superficial.

O Orientalismo criado pelo Ocidente não se deve basear como uma verdadeira história, não que eu saiba a verdadeira versão, mas em poucos dias, pude perceber a riqueza de todo aquele povo e a pobreza descrita e pregada aqui em nosso país e na maioria do Mundo.
Não que os conflitos sejam falsos, mas será mesmo que sabemos os verdadeiros motivos de todas essas guerras?

O Oriente Médio não é só areia e bomba , assim como o Brasil não é só Samba e Ipanema, na África não existe só miséria, e o Japão está longe de ser um país apenas de pessoas honestas e sushi.  Pensamentos pequenos como estes, trazem consequências devastadoras. Comentários errôneos podem causar um vínculo desastroso, formar mentes que futuramente podem causar resultados piores do que estamos vivendo.  

Aliás, por qual motivo temos que ser divididos em Oriente x Ocidente? Palavras inocentes dirão que é para facilitar a distinção geográfica, mas vejo que estas pequenas nomenclaturas fazem com que as diferenças se aumentem e absolvam quaisquer possibilidades de união entre estes dois lados – que um dia torço para que seja apenas um.

Uma linha imaginária criada por não sei quem, que mata pessoas e criam fantasmas inexistentes em milhares de seres.  Falamos tanto em globalização, mas o que pregamos é o individualismo, um contrassenso que cresce cada vez mais sem notarmos. Não somos ninguém para julgar outro povo, não conhecemos a cultura deles, o jeito deles. A televisão é minha amiga, mas sempre devo suspeitar do que dizem, se calar ao receber uma informação é o pior erro que podemos cometer.  

Creio que grande parte dos meus leitores sejam jovens , assim como eu , a minha dica é, quando houver possibilidade, que todos troquem aquela viagem pela Disney por um tour pelo Oriente Médio ou por algum país pouco comentado pela mídia. Faça valer aquele ditado “Ver para crer”. Se não for possível viajar, adote bons livros, faça contatos, vá atrás de coisas invisíveis e as torne visíveis. Assim quem sabe, mudarão o conceito de nossa geração denominada Y. E mostraremos para os “tradicionais” que a verdadeira História não se apaga, não se julga como produto e muito menos se inventa como algo qualquer.

Brasil e Qatar : Um Mundo , muitas histórias.
Brazil to Qatar: One World , many stories.
من البرازيل الى قطر: عالم واحد و حكايات كثيرة




Agradecimentos:
Aos amigos que fiz por lá, não sei se um dia reencontrarei todos ou alguma parte, mas quero que saibam que foi uma honra poder compartilhar estes momentos com vocês e que sou feliz por ter conhecido cada um.
A BibliASPA, um segundo lar que apareceu na minha vida e me ofereceu esta incrível oportunidade , além de ajudar no meu crescimento diariamente.  Ainda não sei como achei vocês, mas tenho a certeza que cuidarei para nunca perder.
A QFI pelo incrível apoio no meu mundo e de todos os jovens envolvidos no projeto ( e consequentemente fora dele).
E a National Geographic, por ter oferecido uma equipe de fotógrafos e amigos maravilhosos e incríveis no que fazem. Ajudaram-me a perceber e ter a certeza no que eu quero para a minha vida.

شكرا لكم جميعا

“A gente muda o Mundo com a mudança da mente …” 
Fim.

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Conexão Qatar #6: A última reza

18 abr
Uma vila abandonada, esta foi a primeira coisa que  avistei ao acordar dentro do ônibus. Não olhei errado, era realmente isso.  O local era uma antiga aldeia de pescadores chamada “Al-Jemail”, foi construída no inicio do século XVIII e abandonada nos anos 70. Antes grande parte da população do Qatar morava naquela região, vivendo basicamente da pesca.

Sou apaixonada por história, objetos e cenários antigos. Parecia uma criança em um parque infantil, me desliguei de todos, apenas peguei a minha câmera e comecei a fotografar. Entre um passo e um clique começo a notar o quanto era rico aquele cenário, dentre destroços e restos havia uma lembrança enorme naquele local. A água do mar rodeava o espaço, um mar que não fazia barulho, tão calmo quanto o lugar abandonado. É inevitável o pensamento de tentar imaginar como era tudo aquilo antigamente. Vejo o por do sol sentada em uma ruína, a luz encostava-se às águas, e todas as pessoas ao meu redor, respeitavelmente, pararam para contemplar aquele momento.


Vila abandonada “Al Jemail”

Movimento-me e já me encontro em outra paisagem, em outro dia. Estava prestes a subir em um Dhow, um tradicional barco qatariano, rumo ao Golfo árabe. Consegui avistar a linha do horizonte de Doha.


Uma cena que adorava ver era a hora da reza, me explicaram que existem algumas “regrinhas” a serem respeitas neste momento tão sagrado,  sendo algumas delas:
– A limpeza do seu corpo e vestes é fundamental, a mulher deve estar purificada da mestruação e suas unhas não podem estar pintadas. Deve-se cobrir o corpo feminino, deixando exposto apenas o rosto e as mãos.
Dhow , barco tipico do Oriente


– Verificar a direção de Caaba, cidade sagrada, localizada em Meca. Eles aprendem desde pequeno como se orientar para o polo correto, por meio do sol, bússola ou das mesquitas locais.

– Não se deve interromper a oração com outros atos, como comer ou beber algo.

 Tyrone , Fotografo National Geographic ( Por Débora Komukai)
Todo dia escutava o som vindo das mesquitas, espalhadas por diversos pontos, chamando os fieis para o momento da oração. A cidade parava, era como se você estivesse cercado de pessoas, e em apenas  um minuto todos sumissem  ( até policiais). Pensem só como seria o centro de São Paulo sem policias? Nem que fosse por apenas alguns segundos, tudo viraria um caos. Lá não, tudo ficava em ordem, como estava.

O único dia que não escutei a chamada da mesquita foi na noite que acampei no deserto. Não sei muito o que descrever sobre este dia . Não sei se há descrição. Imaginava algo bem diferente antes de chegar.  Rolei pelas dunas e quase morri para escalar tudo aquilo de novo.  Consegui avistar a fronteira que liga o Qatar com a Arábia Saudita. O  frio exalava , cheguei a ficar com 6 blusas e uma toca que tampava o meu rosto inteiro. O acampamento parecia uma rave , havia um DJ por lá , e quando notei já estava dançando no meio de toda aquela areia , os funcionários olhavam de um jeito estranho, ou será que era eu que dançava estranhamente? (fica a dúvida). Minha maior dica é , todos que forem um dia ao deserto devem parar tudo e deitar , nem que seja por alguns segundos , naquela areia fofa e gelada junto ao céu.

Momento de paz , pôr do sol na vila de pescadores ( Por Débora Komukai)
Dica: Só parecem ser meigos ….

Expedição no Mangue 
Ruinas de Al Jemail ( Por Débora Komukai)

A subida depois foi cruel ,  deserto do Qatar . Há poucos metrôs da fronteira com a Árabia Saudita




Confio , aceito e agradeço –  Rumo ao Golfo Árabe ( Por Débora Komukai)





No outro dia voltei à cidade, escutei o som da mesquita, novamente. Uma tristeza me dominou, sabia que aquela era a última vez que escutaria aquele barulho, naquele contexto , cercada com aquelas pessoas . Os dias voaram e aquela seria a minha última noite em DOHA.  Uma cidade que me surpreendeu com a sua educação. Tão pequena e tão bela….





مع السلامة قطر


السلام مع جميع


(Tchau Qatar / Que a Paz esteja com todos)







AMANHÃ: Último post da Série CONEXÃO QATAR, Não Perca! 😀




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Conexão Qatar #5: I don’t speak arabic!

22 mar
O dia já estava se escondendo, era hora de voltar à cidade. A maré da praia parecia querer me contar algo, o barulho das ondas me trazia energias jamais sentidas. Comecei a observar todo aquele cenário, aquele céu, aquelas águas. Há tempos não parava tudo ao meu redor, só para observar, notei minhas colegas sorrindo uma para outra e comecei a sorrir também. E por um instante agradeci por aquele momento. E no meio de toda essa reflexão escuto bem de longe um ruído, até que o som se aproxima e percebo alguém gritando comigo “ YALLAH JAPONESA, YALLAH” *. Minha mente volta ao mundo, bem mais leve, mais pura. E percebo que realmente, o dia já se foi, mas a noite no mundo árabe ainda me reservava muitas histórias.

Adoro escutar música observando a estrada. E no Qatar isto se tornava mais interessante. Sua estrutura é uma mistura de desenvolvimento com áreas totalmente desabitadas. Uma hora observava um enorme prédio, no outro segundo, só enxergava areia. Também sei que a mesma paisagem deserta que vi há alguns dias atrás , provavelmente , não estará mais lá daqui a poucos anos. Já que, quem é ligado no mundo sabe, esse país promete. Engraçado era notar que viajei para o extremo oeste do país, de ônibus, e demorei apenas 2H. Cara, duas horas é a média de tempo que eu faço para voltar da Avenida Paulista – São Paulo para a minha casa, em dias comuns. Sim, lá não presenciei nenhum congestionamento, não importando o horário. Juro, que às vezes, essa falta de caos me despertava até certo “medo”.

Tatuagem de henna e hubs ( Por Débora Komukai)

Professora Qatari em praia local ( Por Débora Komukai)

Tipica tenda de praia do país ( Por Débora Komukai)

Meus pés nas águas do mar de Alanah-Anah
O ônibus estacionou , vejo um estádio enorme , com o seguinte letreiro: “ AL GHARAFA SPORTS CLUB” . Este time é a maior equipe de futebol do país. Atualmente conta com a liderança do técnico brasileiro, carioca da gema, Leonardo Vitorino. Quando ele veio nos cumprimentar a felicidade me dominou, não imaginava o quanto é gostoso estar em outro país e escutar alguém desconhecido falar o seu idioma , a sua gíria.Conhecemos os jogadores – dentre eles havia 3 brasileiros. Foram todos tão atenciosos que mesmo com o cansaço pós treino, nos chamaram para jogar com eles .Lógico, que não perdi esta oportunidade.

E do nada lá estava eu, um nada, no meio daquele campo enorme, no centro daqueles homens gigantes. Não há dúvidas, o futebol é algo que uni as pessoas não importando o lugar que esteja. É o raro momento no qual não importa se você fala o mesmo idioma ou não, as regras são claras e um único sinal expressa tudo. A noite estava muito fria. Após correr alguns minutos comecei a sentir aquele vento me cortando, mas nada era motivo para se sentar no banco. Vi cenas raras , quando alguém fazia gol eram 3 gritos da mesma tonalidade , expressando palavras diferentes , mas com o mesmo significado. Avistei um homem com vestes longas (ثوب) e sandália jogando ao meu lado. Disputei a bola contra um jogador profissional – cena que jamais imaginaria viver e confesso que eu perdi a bola. Mas, consegui deixar a minha marquinha naquele gramado verde Brasil , com um golzinho no canto da rede , com direito a comemoração.

Jogador do Al Gharafa , boleragem.

“Walter”, representando o Brasil ( Por Débora Komukai)
Na volta estava exausta, até que escuto uma história cômica, que me faz despertar. Um colega que viajou comigo conseguiu cometer alguns erros de inglês, maiores que o meu. O primeiro foi o seguinte, o sujeito queria um copo da água e me soltou algo assim “I need WALTER” . (Imaginem só a cara da garçonete), porém, não feliz com esta situação o mesmo individuo tenta conversar com uma atendente do hotel em inglês, a mulher simplesmente respondeu: “I don’t speak arabic”… Que fase!

Conexão Qatar #4: Um mergulho na cultura árabe

5 mar
Lembro-me da minha primeira apresentação de escola como se fosse ontem.  
Confesso que nunca fiquei muito nervosa para este tipo de situação, porém, sei que existem inúmeras pessoas que tremem, se irritam, passam mal só de pensar em ficar exposta a um certo público. Bom, mas agora tudo era diferente. Sabia que em poucas horas teria que fazer uma breve apresentação do meu país para os estudantes Qataris, só que dessa vez, tudo seria dito e lido em ÁRABE!

Meu Deus, Oh Alláh, quem irá me proteger?
Nada de chorar, vamos nessa. 

Qatar Leadership Academy

Rumo a Qatar Leadership Academy, o quê? Calma aí, galera, eu explico: A QLA é uma das instituições mais respeitosas do Qatar. Um colégio militar que tem como lema as palavras: “Disciplina, honra e sabedoria”. Para variar a estrutura era magnífica. Fomos recebidos com uma dança típica do país, que envolvia uma curiosa música e um jogo de espadas, show!


Falcão na sala de visitas da QLA

Entro em uma sala toda decorada, noto algumas almofadas, tapetes coloridos, objetos típicos, um falcão, quadros, detalhes magníficos… UM FALCÃO? No meio da sala? Assim do nada? SIM! Com todo cuidado tive a oportunidade de segurar a ave em meus braços. O animal é treinado e tratado pelos estudantes e funcionários, algo incrível.

No mesmo dia andei de camelo, confesso que achava que eles eram bem mais dóceis (um deles quase me mordeu).

O tempo voa quando estamos fazendo algo que gostamos, com certeza, você já reparou nisso. Os sentimentais que me desculpem, mas com toda aquela correria e aquela ânsia de aprender coisas novas, ainda não havia tido muito tempo para me comunicar e de sentir falta de ninguém do Brasil. Quando eu notava já era de noite , já estava exausta. Minha apresentação foi concluída com sucesso, “Al-hamdu-lellah”. O friozinho na barriga já era algo do passado, que fase, que vida.

A hora mais feliz do dia , almoço na praia de Alanah-Anah

No dia seguinte fomos convidadas a irmos à praia de uma das estudantes. Isso mesmo, você leu corretamente, a praia era de fato da família de nossa colega. Foi uma honra. Fomos recepcionados de forma calorosa e para variar com muita fartura. A paisagem era linda. Nunca tinha visto uma água tão limpa. A areia era mais grossa e clara. Não havia quase nenhuma onda naquele mar, agora me recordo daquele barulho e daquela paz, que saudade. Neste mesmo local aprendi que molhar os pés e ficar na brisa do final da tarde, realmente, não resulta em algo legal. Meus dentes batiam de frio, minha boca estava roxa, no entanto estava de óculos escuros e na praia. Dá para imaginar? É um paradoxo tão grande que descrevendo assim parece até piada. Fui acolhida com uma manta e uma fogueira, acompanhada de pão quente e chá. O calor das pessoas ao meu redor era aconchegante. Lá tive a oportunidade de ouvir palavras que pretendo levar para a vida. Achava que por ler bastante sabia de diversos assuntos, mas percebi que não sabia de nada. Me ensinaram que um olhar visto somente por uma tela ou papel, não é nada real. Apenas quem vive aquilo pode nós contar o que realmente é. 


Entre diversas perguntas, desde religião até família, uma delas foi: Como vocês sabem que estão se casando com o homem certo?” – Já que a separação é má vista e não existe namoro no país –  me responderam deste modo: “Fácil, é só notar como ele trata as mulheres da vida dele. Se ele tratar bem a sua mãe, irmã, avó, ele há de te tratar bem também. Amar não é ficar falando coisas bonitas , é ter alguém que há de largar tudo quando você precisar, é cuidar de você”.

Parece simples lendo aqui, por vezes até meio bobo. Mas foi daí que comecei a pensar que nós ocidentais nos julgamos “moderninhos” e adoramos falar o quanto é rústico o modo de relacionamento no oriente médio, porém, somos tão modernos que nos esquecemos dos detalhes mais antigos de uma relação e assim trocamos de pessoas igual trocamos de roupa, porque ser moderno é ser sempre atualizado. NÃO.

Alanah-Anah beach

Apresentação de dança ( Por Débora Komukai)

العرضة ( Por Débora Komukai)

“Nossa , nossa , assim você me mata..”


Meu pensamento vai embora quando sou convidada a dançar. Lá descobri que não importa o ritmo musical, decididamente, não nasci com gingado. Risadas naturais me rodeiam, o sol já estava se escondendo, cerca de quinze mulheres de diferentes lugares estavam repartindo aquele único momento, aquela única música. O dia ainda prometia muito…


-انضباط
معرفة
ثرف

De cima para baixo
disciplina, honra e conhecimento.

Conexão Qatar #3 : Ai se eu te pego, Qatar!

28 fev
Mulher no mercado local de Doha, usando uma típica Niqab ( Por Débora Komukai)
Me desperto com o toque do telefone, atendo e escuto uma voz estranha com um sotaque engraçado. São 7H da manhã, o tempo parecia estar mais nublado desta vez. Ando pelo quarto, ainda meio desnorteada. Acordo minha colega e começo a me arrumar. Após alguns minutos estava rodeada de amigos, tomando um suculento café da manhã. Entre algumas conversas e outras, reparo nas pessoas ao meu redor. Noto uma em especial, uma mulher com uma tradicional NIQAB –  véu integral que cobre completamente a cabeça e o corpo, deixando visível apenas os olhos. Já tinha visto várias mulheres com este traje no AL Souq, porém nunca tinha tido a experiência de vê-las comendo. 

Meu primeiro pensamento foi “como ela vai fazer para comer com a boca coberta?” – Aposto que você também pensaria algo assim. Fixei meus olhos de maneira discreta em sua direção. Reparo que o seu véu tinha uma abertura na parte da boca, como se fosse uma cortina, porém, era levantada de baixo para cima. E foi assim, deste modo que ela começou a comer. A cada colherada ela levantada discretamente uma parte do pano, deixando livre por alguns segundos, apenas a parte da boca. O processo era meio devagar e a moça parecia já estar acostumada com aquela situação. Entretanto, o que me deixou mais impressionada foi que a jovem não sujou nenhuma parte de suas vestes, nem o paninho que ficava na parte da frente do seu véu. INCRÍVEL! Como isso? Confesso que me sujo muito durante as refeições, se eu estivesse no lugar dela, sem dúvidas, no mínimo já teria lambuzado toda a parte da frente da minha roupa.
Jamilas (Lindas)

Pronto, chega de olhar a vida alheia, tinha que me preparar para sair. A vida não parava em Doha. Subo correndo para o meu quarto com mais três amigas. Quando já estava quase abrindo a porta escuto uma delas gritando “Que isso, abre logo, vai vai”, viro o olhar e vejo uma figura bizarra próximo ao meu grupo. Era um rapaz, de aparência indiana, de cueca samba canção e camiseta, dizendo “COME HERE, COME HERE”. Ele estava bêbado ou levemente alterado. Um funcionário do hotel passou e começou a brigar com ele. Eu e minhas amigas entramos correndo e rindo, pois isso sim, é algo que não se vê todo dia. (Me lembrei,rapidamente, do personagem Raj da série The Big Bang Theory. E tudo parecia estar certo… Ou não.



Labirinto histórico, Al Souq ( Por Débora Komukai)

Mais um dia na Cidade da Educação e foi neste dia que fomos separados em grupos de trabalho. Cada grupo levava o nome de uma cor e tínhamos a missão de fotografar um tema escolhido para uma apresentação no final da viagem. Todos os alunos receberam uma câmera fotográfica profissional, tínhamos a liberdade de fotografarmos o que quisesse. Aliás, devíamos registrar todos os momentos. Talvez, a parte mais difícil da viagem foi este começo. Já que basicamente todos os times eram compostos por três nacionalidades diferentes, brasileiros, qataris e americanos em um único ciclo. A barreira linguística e cultural era visível, mas ao mesmo tempo foi boa, já que por conta deste “obstáculo” as pessoas pareciam prestar mais atenção nas palavras e nos gestos do próximo.

Após algumas dicas de fotografia e de inúmeras fotos, voltamos para o almoço.


Preparei aquele prato cheio de sustância para aguentar o dia, e quando estava pronta para devorá-lo, um homem me cutucou e pediu para eu e minhas amigas acompanhá-lo até o hall do hotel. Nos deparamos com um grupo de pessoas de aparência séria. Entre eles estavam o diretor e o dono do estabelecimento. Eles pediram desculpas pelo ocorrido da manhã. Explicaram que o Qatar era um país extremamente seguro e que aquilo era algo muito raro de ocorrer, e ainda disseram que o nosso vizinho de quarto, o bêbado, havia sido expulso do hotel por conta daquele ato. Ficamos até sem palavras, não achávamos que uma atitude daquela ia gerar tudo isso. Uma reunião e pedidos de desculpa ao vivo só por nossa causa? É, nem tudo dá em pizza, Brasil.



Prédio comercial do centro de Doha ( Por Débora Komukai)

Neste mesmo dia saí para fazer compras pelo mercado local. Descobri que aquele solzinho bonito que avistava da janela era uma farsa! Passei um frio extremo. O vento era cortante. As qataris me apareceram com um chocolate quente, que não era chocolate quente. Aliás, até hoje não sei o que era aquilo, mas seja lá o que for me aqueceu e estava bom!



Estudantes Qataris ( Por Débora Komukai)
Na volta, o ônibus foi separado por sexo. E foi aí que tivemos a chance de descobrir quem eram as verdadeiras meninas que estavam conosco. Elas mudaram ao perceberem que estavam rodeadas só com mulheres. Fomos cercadas de perguntas, dançamos juntas, cantamos e ensinamos a elas alguns hits brasileiros, entre eles a famosa música de Michel Teló “Ai se eu te pego”. Podem me falar mal, dizer que isso é horrível, que isso não é cultura, etc. Ensinamos mesmo essa música para elas, não ligo, não rotulo ninguém. Só vivo o momento e tento tirar deles a melhor história para ser contada. Por que a alegria que sentimos ao ver aquelas meninas dançando livremente, é o que marcou, é o que vale a pena.

Eu e Khalid  , ” Mãe , fui comprada por um Sheik”

فر ح    
(Farah , alegria)


Hey, você: perdeu algum episódio do Conexão Qatar?
Veja aqui:



Conexão Qatar #2: Olá ! Hi ! Salam Aleikum!

17 fev
Amanheceu em Doha, ainda me encontrava em um estado de sonho. O sol parecia contagiante, nem dava para imaginar que aquilo era inverno. Aquela sensação de estar tão longe e tão perto de casa ainda morava dentro de mim.

Cidade da educação
Após um tempo, deparei-me em uma praça bem grande. Avistei homens e mulheres desconhecidos e visivelmente felizes. A maioria deles com uma câmera fotográfica na mão e um olhar de novidade. Recebo a notícia que aquele grupo de seres com olhares de curiosidade são Americanos, vindos diretos de Washington D.C, todos trabalham na National Geographic e vieram especialmente para nos dar um “workshop” de fotografia. UOU, que fantástico! Uma das minhas grandes paixões é a fotografia. Não consigo descrever tamanha felicidade que senti naquele momento.

Logo após algumas dinâmicas e apresentações, fomos todos para a Cidade da Educação, um lugar criado recentemente no Qatar, com um foco totalmente inovador, destinado a educação e pesquisa. Lá eu conheci os estudantes Qataris. A roupa de alguns deles foi algo que observamos desde o inicio. Pareciam ser tímidos, ficamos com receio até de apertar as mãos dos meninos. As meninas se mostraram mais quietas ainda, congelamos por alguns segundos. A sensação de novo dominava aquele lugar….
Lojinhas do Souq . ( Por Débora Komukai)

Al Souq , um labirinto histórico. ( Por Débora Komukai)

Ao anoitecer fomos ao famoso AL SOUQ, mercado típico do Qatar. Um labirinto histórico, recheado de tradição e bugigangas para se levar. Assim que pisei no Souq me senti em um filme de Hollywood. Não é exagero, juro. Aquilo foi incrível. Sentia que a qualquer momento iria surgir um diretor de cinema de trás de alguma coisa e gritar “Corta , corta , vai de novo, produção!”.


A sensação de comer tudo e não saber de nada.
Jantamos em um restaurante típico do Iraque, e cheguei à conclusão que estava comendo tudo, mas na verdade não sabia de nada do que estava ingerindo. Achei o tempero diferente, mais adocicado. Na mesa encontrava-se um pãozinho sírio enorme e bem quentinho, dava para ver até a fumacinha saindo dele – delicioso. Experimentei um arroz exótico, não era doce, mas sem dúvidas, não era salgado. Algumas carnes eram saborosas e outras havia um gosto diferente – algo que jamais havia provado no meu Brasil. Entretanto, nada ganhou da sobremesa….

Inicialmente o garçom se encontrava de pirraça comigo, e para me provocar, entregou a minha tigela por último. E assim, começo a notar que a expressão das pessoas ao meu redor, em questão do doce não era boa. Nem ligo. Apanho uma colher e pego um pedaço enorme daquele pudim, mas, noto que aquilo tinha um gosto semelhante à detergente. Naquela noite experimentei comidas e temperos que jamais imaginaria um dia tocar.

Delicia!
A alegria da mesa me contagiava, a decoração do local era 
impecável, uma mistura de histórico com elegância. Lembro-me do cheiro do Al Souq como se ainda estivesse lá, uma mistura de incenso e cidade, algo indescritível de se comentar. Tudo era novo ao meu redor, até as sensações mais antigas pareciam ser novidade. E quando eu pisquei os olhos, percebi que já era bem tarde, e mais uma vez deitei em minha cama com aquele ar de satisfação, com aquela felicidade que só depende de você …
تشرفنا بمعرفتك يا قطر
(Prazer em te conhecer , Qatar)

Conexão Qatar #1: Marhaban , QATAR !

10 fev
Até a placa é personalizada!  ( Por Débora Komukai)
E depois de 14 horas de voo me deparei com uma terra totalmente diferente da minha. Não enxerguei nenhuma palmeira e muito menos um sábia. Logo que sai do avião percebi que estava sendo observada, éramos um total de 30 pessoas. Jovens felizes e bravamente barulhentos, mas notamos que não estávamos sendo vistos por estes detalhes e sim porque realmente nós, no caso, eramos os “diferentes” do momento. 
Sim, é estranho falar sobre isso, mas pare e pense, se um grupo de pessoas com véu e turbante andar em plena Avenida Paulista (SP) todos ou quase todos iriam parar para observar. Tudo que é novo ou desigual assusta. Do nada, um rapaz tirou uma câmera do bolso e começou a nos fotografar. Algumas pessoas comentaram algo ao meu redor, outros até apontaram em nossa direção: 
5 minutos de fama? Ou seria 5 minutos de uma “novidade bizarra”? 
Bom, prefiro ficar com a primeira opção.
Ao entrar no ônibus, tive o meu primeiro contato com a famosa e não tão famosa Doha – capital do país. Muitas luzes, prédios, construções – muitas construções, Doha parece não parar de crescer, é obra para todo o lado.

Mas espera, cadê o deserto? Camelos? Beduínos?
Aí pensei rapidamente em todos que me diziam
“Nossa , fazer o que lá? Ficar no deserto para quê?”.
BOA GALERA , TÃO SABENDO LEGAL! (risos)

As ruas são bem limpas, tive a sensação de que estava em uma maquete. Eu era uma espécie de boneca de plástico em uma cidade surreal. Acredite, nada disso é aforismo, o negócio é limpo mesmo. Fiquei bem entretida com as placas, das mais variadas , eu as lia lentamente – igual criança sendo alfabetizada – tudo em minha cabeça girava em um sentimento confuso.

Que LOUCURA! Quando cheguei ao hotel soltei logo um “Marhaban” toda feliz, porém percebi que não era correspondida. Notei que quase nenhum dos funcionários do hotel se comunica em árabe. Bom, já era de se esperar, pois havia lido em algum lugar que o Qatar conta com uma população de mais de 70% estrangeira, ou seja: Inglês, você foi o escolhido da vez! (detalhe que não sei quase nada de inglês e nem árabe. Pensei comigo: “Oh senhor o que estava fazendo naquele país?” Aí você percebe que a coisa ficou séria!)

Já era tarde e precisava dormir. Aquelas 14 horas voando em territórios africanos, latinos e sei lá mais o quê tinham me deixado exausta. Saí à noite e cheguei de noite. A beleza do local me encantou de primeira. Estava bem longe de casa, porém,  me sentia em meu próprio lar. Loucura? Fuso horário? Quem sabe. 
Realmente precisava descansar, pois em poucas horas mais surpresas estavam à minha espera….

 ليلة سعيدة قطر
Boa noite Qatar