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Cinco livros nunca traduzidos para o português que PRECISAM ser lidos – 2/5

6 maio
Por: Bruna Lobato
De: Poultney, Vermont, EUA
Email: brunalobato@revistafriday.com.br

Como eu escrevi no último texto que publiquei aqui, há verdadeiras obras-primas escritas em outros idiomas, que nunca foram traduzidas para o português. Apesar da minha frustração, decidi recomendar alguns desses livros aqui. Afinal, todos deveriam lê-los quando tiverem a oportunidade. Apesar de que, obviamente, nunca ninguém poderá ler todos os bons livros escritos em todos os idiomas (ou nem mesmo no nosso), alguns deles são essenciais para que possamos entender melhor a nossa sociedade, o mundo que nos rodeia e o cenário literário do período a que essas obras pertencem.

Resolvi, então, fazer uma curta lista de cinco livros que considero importantes, mas que não possuem traduções acessíveis. Este segundo livro da seleção é o que mais me surpreendeu, afinal o livro é um clássico imperdível:

2. Cat’s Craddle do Kurt Vonnegut:

Cat’s Cradle, ou Cama de Gato, em português, é uma exceção nesta lista, pois já foi traduzido no passado. No entanto, a tradução da editora Record de 1991 é extremamente rara e só pode ser encontrada em sebos, por preços exorbitantes.

Apesar de outras obras do Vonnegut possuírem traduções populares para o português, Cama de Gato é, sem dúvida, a sua melhor obra.

Vonnegut é um dos escritores americanos mais comentados do século 20. Cama de Gato, publicado originalmente em 1963, é o seu quarto livro e é um verdadeiro clássico da ficção científica. Há até quem diga que seja um dos livros mais importantes da década de 1960.

O livro abrange diversos temas como antropologia, religião, política e sociologia – tanto que lhe valeu como uma tese de mestrado em antropologia na Universidade de Chicago.

O livro começa com a descrição de um homem comum chamado John, o protagonista, que pretende escrever um livro sobre o que os americanos estavam a fazer no dia em que a bomba de Hiroshima foi lançada. John viaja para conduzir uma entrevista que serviria de material para o seu livro e, depois de algumas pequenas confusões, acaba parando em uma ilha ficcional de San Lorenzo – uma das mais pobres da terra, falante de um idioma crioulo e regida por um ditador.

John aprende sobre a cultura, costumes e manifestações religiosas de San Lorenzo. O livro narra a adaptação de John à ilha, além da queda e substituição do seu ditador. O romance é muito mais complexo do que parece, elucidando conceitos de apropriação cultural e até o fenômeno de suicídio em massa. É claro que John volta para casa com um livro melhor do que o que ele pretendia escrever, apesar de mais desestimulante para a raça humana. O seu novo livro intitula-se “Uma História da Estupidez Humana”.

Capas de algumas das diversas edições de Cama de Gato

Possivelmente devido às experiências do próprio Vonnegut como soldado na Segunda Guerra Mundial, Vonnegut consegue transmitir com um olhar clínico a aridez dos seres humanos, sem repetir as já tão conhecidas descrições dos horrores da guerra. Vonnegut descreve outros tipos de guerra, menos explícitas: as contradições de um cientista amoral, de um ditador com ideais irracionais e religiões fabricadas.

Cama de Gato é uma irreverente sátira à humanidade, uma irônica autocrítica e um “boicote” criativo aos ideais sociais repetitivos e impensados do mundo moderno. O livro possui um humor crítico implacável, divertidíssimo, profundo e provocante. Apesar de bem curto, a obra é absolutamente memorável.

“Quando um homem se torna um escritor, eu acho que ele toma a obrigação sagrada de produzir beleza e esclarecimento e conforto em alta velocidade”.  Kurt Vonnegut em Cama de Gato (tradução livre)

“When a man becomes a writer, I think he takes on a sacred obligation to produce beauty and enlightenment and comfort at top speed.”



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Cinco livros nunca traduzidos para o português que PRECISAM ser lidos – Parte I

29 abr
Por: Bruna Lobato
De: Poultney, Vermont, EUA
Email: brunalobato@revistafriday.com.br

Vai fazer um ano que eu moro nos Estados Unidos, então dá para imaginar que eu leio cada vez menos em português. Onde eu moro, ainda bem, tem mais de uma biblioteca pública. Mas não é difícil deduzir que a coleção em português é muito reduzida e que, mesmo quando eu tenho acesso à abundância de livros em português, quando vou à bibliotecas maiores (as bibliotecas públicas de Boston e Nova Iorque passando pela minha mente), eu não tenho tanto tempo assim para lê-los.

Por outro lado, estou sempre lendo em inglês. Eu faço faculdade de literatura e escrita criativa por aqui, então, mesmo quando eu estou sem tempo de ler por diversão, eu não paro de ler livros para trabalhos da faculdade, etc. Por essa razão, constantemente eu acabo tendo ideias de escrever aqui sobre “um livro maravilhoso que eu li” e fico desapontada ao saber que não existe tradução de tal livro para o português.

 Capas de algumas das várias edições de Pilgrim at Tinker Creek, livro nunca publicado no Brasil

 
Pensei que, ainda assim, eu deveria compartilhar a minha lista de livros não-traduzidos. Eles são livros muito bons e, alguns deles, de grande importância histórica. Além do mais, eu ainda tenho esperança que um dia eles sejam traduzidos para este idioma em que vos escrevo – nem mesmo que eu seja a pessoa a traduzi-los!

Segue a primeira parte da lista:

1.  Pilgrim at Tinker Creek da Annie Dillard:

Annie Dillard é uma escritora maravilhosa, com metáforas impressionantes e narrativas memoráveis. Os textos de não-ficção do seu livro Pilgrim at Tinker Creek saíram do diário do seu diário e descrevem o ambiente natural às proximidades da casa dela, em Roanoke, Virgínia, EUA.

O livro descreve Deus através dos estudos de criacionismo, levando, inclusive, alguns críticos literários a rotular Dillard como uma das mais importantes escritoras de horror do século 20. Este livro rendeu a Dillard o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção de 1975 (o prêmio mais importante da literatura americana, organizado pela Universidade de Colúmbia), quando ela tinha apenas 29 anos.

Uma das minhas cenas favoritas do livro está bem no comecinho, uma em que o gato da Annie a acorda, depois de voltar da caça noturna, ao caminhar sobre o corpo dela, manchando-a com as suas patas sujas de sangue. “Parecia que eu tinha sido pintada de rosas”, ela diz (tradução livre). No entanto, esse trecho foi o que mais gerou controvérsias, pois, na verdade, Annie nunca teve um gato, levantando a questão de o quanto de liberdade um escritor tem para inventar coisas em uma obra de não-ficção.

Eu acho a maior decepção que esse livro não tenha tradução para o português. Eu mesma já entrei em contato com editoras solicitando a tradução da obra, mas “o livro não teria espaço no mercado”, eles dizem. Otimista como sou, penso que eles não podem estar falando sério.

…continua…

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Jardim de Inverno

22 abr
Por: Bruna Lobato
De: Poultney, Vermont, EUA

Pablo Neruda (pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto), nascido no Chile, foi um dos poetas mais importantes da América Latina. Autor de mais de trinta e cinco livros de poesia e amplamente traduzido para vários idiomas, ganhou o Prêmio Nobel da literatura de 1971.

Neruda foi um dos autores mais políticos do seu tempo e morreu em 1973, quando não resistiu ao histórico golpe militar que tirou o seu amigo Salvador Allende, marxista e o 45º presidente do Chile, do então democrático governo chileno.

Jardim de Inverno é a sua coleção de poemas de maior cunho pessoal. O título faz alusão ao seu sentido literal, uma estufa para crescer plantas do lado de dentro. Neste livro, Neruda deixa um pouco de lado as suas preocupações sociais e políticas e se volta para si.

O livro  é uma coletânea dos versos escritos em 1971, ano em que Neruda foi laureado com o Prêmio Nobel, dois anos antes de sua morte. Os versos desta obra são mais melancólicos e líricos, nesta fase conhecida como a última do autor. Nesta obra, Neruda continua a produzir a sua poesia de alto nível em um tom de despedida e mais voltado para os mistérios da vida que se aproxima do fim.

Que posso fazer se me escolheu a estrela / Para ser um relâmpago, e se o espinho / Me conduziu à dor de alguns que são muitos? / O que fazer se cada movimento /  De minha mão me aproximou da rosa? (Trecho de Jardim de Inverno)

A poesia do Neruda é quintessencial. Soa perfeita, fluida, escorre pela língua. Já li os seus trabalhos em espanhol, português e inglês e, sempre no original, ou ao encontrar boas traduções, eu me deleito. Sem defeito algum, simples e criativos, os seus versos são perspicazes a apresentam coisas banais de um jeito inusitado e cheio de humor (vide “Ode ao Tomate“).

Recomendo uma cópia bilíngue do livro, com os poemas em ambos português e espanhol, para que se desfrute completamente da magnitude dos sons das palavras da poesia de Neruda.

Dedicado a ele e à sua extensa obra, reproduzo aqui um trecho da sua “Ode ao Livro”, em espanhol:

Oda al Libro

Libro de poesía
de mañana,
otra vez
vuelve
a tener nieve y musgo
en tus páginas
para que las pisadas
o los ojos
vayan grabando
huellas:
de nuevo
descríbenos el mundo

Título: Jardim de Inverno
Autor: Pablo Neruda
Editora: L&PM Bolso
Ano de lançamento: 2005
Número de páginas: 96




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O Perfume

15 abr

O Perfume, romance do escritor alemão Patrick Süskind foi publicado em 1985 e desde então já vendeu mais 15 milhões de exemplares em quarenta línguas. É o maior clássico alemão da década de 80.

O livro conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, nascido em 1738. Ainda recém-nascido, ele é abandonado pela mãe, uma feirante, junto à uma barraca de peixes em um mercado de Paris, a cidade mais suja e mal cheirosa do século XVIII.

Além de ser rejeitado pelas amas-de-leite e por instituições religiosas, ele também é rejeitado pela natureza, que lhe nega o direito de exalar um cheiro  próprio.

Ao mesmo tempo em que não tem cheiro nenhum, ele é dotado de imensa sensibilidade olfativa. O seu olfato apurado lhe proporciona fama e riquezas, mas, na verdade, o que ele busca é a essência perfeita – o perfume que lhe falta e que pode lhe dar o poder de seduzir e dominar qualquer ser humano. Nessa busca obsessiva, ele usurpa a essência dos corpos de suas vítimas.

Patrick Süskind


Este livro é como um brinde à elegância, beleza e aromas. Süskind descreve os perfumes com tantos detalhes que evoca todos os cheiros com impecável vividez.

O romance possui semelhanças com livros no estilo de O Silêncio dos Inocentes. No entanto, incomum para esse gênero, o seu foco é na vida do assassino e não da vítima. O final é surpreendente e fantástico, especialmente pela ironia implícita de que algo pode ser tão bem sucedido que pode dar errado.

Grenouille é um personagem extremamente bem desenvolvido e consistente, assim como todos os outros personagens da história, de tal forma que o filme é quase que uma piada de mal gosto por falhar em capturar a profundidade e dilemas morais dos personagens – ambos sendo detalhes essenciais desta obra literária.

Título: O Perfume
Autor: Patrick Süskind
Editora: Record e Best Bolso
Ano da primeira 1ª edição: 1985
Número de páginas: 280 e 254 

O Assassinato de Roger Ackroyd

8 abr

A escritora inglesa Agatha Christie, conhecida como a Rainha do Crime, escreveu 80 romances policiais, dando vida aos queridos Miss Marple, Hercule Poirot e Parker Pyne. Seus livros são os mais traduzidos do planeta, superados apenas pela Bíblia e pelas peças de Shakespeare.

Um dos seus livros mais famosos, O Assassinato de Roger Ackroyd, protagonizado pelo detetive belga Poirot, foi escrito em 1926 e foi o primeiro grande sucesso da autora, sendo considerado a sua obra-prima.

O romance se passa em uma pequena vila onde o principal passatempo é a fofoca, principalmente mexericos sobre Roger Ackroyd, um dos homens mais ricos da região. Após surgirem rumores de que uma das fofoqueiras do lugar se suicidou, Poirot, que está de férias na vila, ouve falar do assassinato de Ackroyd, morto com a sua própria adaga em seu escritório.

O Assassinato de Roger Ackroyd é um dos romances de mistério mais notórios de todos os tempos, listado no guia “1001 Livros Para Ler Antes de Morrer”. O livro mostra o melhor das técnicas de suspense da Agatha e exemplifica o seu padrão de famílias de classe alta inglesas ao enfrentar problemas relacionados a mortes inesperadas e indesejadas, muito embora assassinatos fossem ocorrências muito raras na época em que os livros foram escritos.

Os personagens deste romance são cativantes e os cenários cheios de detalhes, o que, de certo modo, é incomun para a autora, já que muitos dos personagens de seus livros são pouco desenvolvidos. Neste romance, no entanto, muitos detalhes da história são contados em vez de mostrados, caracterizando um livro que não dá para largar até o fim.

Apesar das controvérsias relacionadas à qualidade de seu trabalho, Agatha Christie é frequentemente admirada pela capacidade de desenvolver enredos complexos com coerência, além das mais conhecidas viradas de trama de histórias de mistério.

Muitos críticos consideram que Agatha Christie escreve suspenses com genialidade, enquanto outros acreditam que ela aplique a mesma “fórmula” de enredo em diversos dos seus romances. Independentemente disso, O Assassinato de Roger Ackroyd é um livro surpreendente e muito agradável de se ler, além de ser um grande clássico do gênero.


Título: O Assassinato de Roger Ackroyd
Autor: Agatha Christie
Editora: Globo
Ano de lançamento: 2009
Número de Páginas: 368

Hai-kais do Millôr Fernandes

1 abr
Meio-dia e as sombras somem.
Eis uma escondida
Embaixo do homem.

Millôr Fernandes

Morreu nesta terça-feira, 27, por volta das 21h, o escritor carioca Millôr Fernandes, aos 88 anos, por falência múltipla de órgãos. Segundo a assessoria do cemitério onde o seu corpo foi velado, o corpo foi cremado em torno das 15h, da quinta, 29, no Crematório da Santa Casa. O escritor foi um dos fundadores do jornal O Pasquim, que fazia oposição ao regime militar no fim dos anos 60.

Millôr é conhecido pelos seus desenhos característicos e traduções de clássicos da literatura. Humorista, cartunista, jornalista, roteirista de cinema, dramaturgo e escritor, escreveu 29 livros de prosa, além de poesia e peças de teatro.

Uma das suas frases mais famosas, diz: “As pessoas morrem quando você as apaga da sua memória”. Sem dúvida, portanto, Millôr viverá para sempre, na memória de muitos.

Dentre inúmeros outros, alguns dos seus textos mais memoráveis são da sua coleção de poemas japoneses, encontrados no seu livro Hai-kais.

Hai-kai (ou haicai) é um tipo de poema japonês que prioriza a objetividade e possui apenas três versos – sendo o primeiro e o último contendo cinco sílabas poéticas, e o verso do meio contendo sete.

A coletânea do Millôr é composta pelos hai-kais escritos entre 1959 e 1986 e faz jus à sua habitual concisão, ironia e sagacidade, tão típicas do autor. Millôr é um dos maiores escritores desse tipo de poesia em língua portuguesa.

Navego
E a noite
É um dia cego.

Millôr Fernandes

Em homenagem ao Millôr, aqui vai um outro hai-kai, dessa vez escrito por Matsuo Bashō (松尾 芭蕉), mestre japonês desse estilo de poesia. Bashō escreveu este versos, aqui traduzidos para o português, poucas horas antes de sua própria morte:

“Poema de Morte”
finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Título: Hai-kais
Autor: Millôr Fernandes
Editora: L&PM
Ano de lançamento: 1997
Número de páginas: 124

Imagens: http://www2.uol.com.br/millor/haikai/index.htm

Laços de Família

25 mar
 “Não te escrevi sobre o teu livro de contos por puro encabulamento de te dizer o que penso dele. Aqui vai: é a mais importante coleção de histórias publicadas neste país na era pós-machadiana.” Érico Veríssimo sobre Laços de Família

Laços de Família é uma coleção de treze contos de uma das escritoras brasileiras mais traduzidas no mundo, Clarice Lispector, autora também de A Paixão Segundo G.H. e A Hora da Estrela. Laços de Família ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura em 1961, na categoria contos, crônicas e novelas.

Nos contos dessa coletânea os personagens são levados por uma morbidade das mais vívidas, no melhor estilo Clarice. Todos eles lidam com verdades pertubadoras, no meio da banalidade de seus cotidianos, até serem abalados por uma epifania durante as suas atividades mais triviais. Os homens e mulheres retratados nessa obra são unidos pelos laços familiares, sendo eles, em sua maioria, elos tanto de afeto quanto de aprisionamento.

Clarice cria situações em que uma revelação, que desconstrói e ameaça a realidade, denuncia uma existência que nem sempre se demonstra significativa, evidenciando uma apreensão filosófica da vida. A coleção trata de diversos temas, incluindo os comuns solidão, morte, incomunicabilidade e os abismos da existência através da rotina de personagens que são facilmente encontrados em um lugar comum, no dia-a-dia.

Clarice Lispector


Clarice fixa nesta obra uma camada específica da sensibilidade pequeno-burguesa figurada na tensão com as representações do poder inconscientemente internalizadas e tornadas institucionais. Como no texto de quem escreve por lampejos, e sem a imediatez de uma literatura de compromisso social direto, tudo isso ali está posto com a sutileza do artífice que afirma e nega, oferecendo ao leitor um traço de machadiana obliqüidade na forma de escolher e registrar os laços que acolhem e acossam seus personagens”, diz Lúcia Helena, pós-doutora em literatura comparada pela Brown University, sobre Laços de Família.

O livro é fascinante, bem além do padrão da Clarice em muitos dos seus livros mais famosos. Apesar disso, ela segue extremamente fiel ao seu estilo de sempre: destemida, feroz, sincera, com uma voz forte e sensível, o feminino em todos os detalhes, os cenários provocando os personagens, como se esses também fossem pessoas. Sonhador e imperdível.

Título: Laços de Família
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Ano de lançamento: 1960
Número de páginas: 136