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O Contribuinte – Ray Bradbury

30 jan
(Texto retirado do livro “As Crônicas Marcianas” publicado em2005 pela Editora Globo)

        Ele queria ir a Marte a bordo do foguete. Foi até o campo de lançamento bem cedo de manhã e gritou através da cerca de arame, para os homens de uniforme, que ele queria ir a Marte. Disse a eles que era contribuinte, pagava seus impostos em dia, chamava-se Pritchard,e tinha direito de ir a Marte. Pois não tinha nascido bem ali, no Ohio? Pois não era um bom cidadão? Então, por que não podia ir a Marte? Sacudiu os punhos fechados na direção deles  e lhes disse que queria ir embora da Terra; qualquer pessoa sensata queria ir embora da Terra. Dali a uns dois anos haveria uma enorme guerra atômica na Terra,e ele não queria estar lá quando isso acontecesse. Ele e milhares de outras pessoas como ele se tivessem alguma sensatez, iriam para Marte. Pergunte-lhes se não iriam! Para fugir das guerras, da censura, da estatização, da conscrição  e do controle do governo sobre isso e sobre aquilo, sobre a arte e a ciência! Vocês podem ficar com a Terra! Estava oferecendo sua mão direita boa, seu coração, sua cabeça pela oportunidade de ir a Marte! O que era preciso fazer, onde era preciso assinar, quem era preciso conhecer, para embarcar no foguete?
      Riram dele através da tela de arame. Ele não queria ir a Marte coisa nenhuma, foi o que disseram. Por acaso ele não sabia que a Primeira e a Segunda Expedição tinham falhado, desaparecido? Que os homens provavelmente estavam mortos?
      Mas eles não podiam provar nada, não tinha certeza, ele retrucou, agarrando-se a cerca de arame. Talvez  lá em cima existisse um lugar cheio de leite e mel, e o capitão York e o capitão Williams simplesmente não tivessem se dado ao trabalho de voltar. Agora, será que eles podiam fazer o favor de abrir os portões  e deixá-lo embarcar no Terceiro Foguete Expedicionário, ou teria de derrubá-los a chutes?

     Eles o mandaram calar a boca.

 
Ele viu os homens se dirigindo ao foguete.
-Esperem por mim! – gritou – Não me deixem aqui nesse mundo terrível, preciso ir embora; uma guerra atômica sera deflagrada! Não me deixem na Terra!
     Arrastaram-no , aos chutes e pontapés, para longe. Baterão a porta do furgão da policia e o levaram embora naquela manhã bem cedinho, o rosto pressionado contra a janela traseira , e, no momento exato em que a sirene tocava bem no alto de uma colina, viu o fogo vermelho e ouviu o estrondo. Sentiu o enorme tremor quando o foguete prateado subiu e o deixou para trás em uma manhã de segunda-feira ordinária, no planeta Terra, tão ordinário.

Recomendação pessoal: Se você já tiver lido As Crônicas Marcianas, aproveite também para dar uma olhada na Graphic Novel baseada no livro e desenhada por Dennis Calero. Alguns contos do livro são transformados em quadrinhos sensacionais, acompanhadas de uma introdução feita pelo próprio Bradbury.

       
Por:Virgínia Fróes
De:Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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RESENHA: Um Estranho no Ninho – Ken Kesey

16 jan

            Ken Kesey é um escritor americano nascido em 1935 no estado do Colorado.  A sua obra mais famosa, Um Estranho no Ninho, é um clássico da contracultura dos anos 60 e foi inspirado nas experiências do autor como pesquisador em um centro psiquiátrico para veteranos de guerra.
O livro conta a história de R.P. McMurphy, que é preso e para escapar da cadeia, finge-se de louco e acaba por ser internado em um hospital psiquiátrico, acreditando que lá as coisas serão mais fáceis. Entretanto, ele descobre que os internos são controlados e reprimidos de maneiras terríveis.  Por se rebelar e tentar melhoras as coisas dentro do hospital, McMurphy se torna o ídolo de seus companheiros, mas acaba por atrair também a inimizade da opressora enfermeira Ratched.
            O livro tem a sua historia em primeira pessoa, contada pelo Chefe um índio que é um dos pacientes da instituição. É a partir de seus pensamentos e opiniões que se pode ver como realmente é o hospital e seus funcionários, incluindo a temida enfermeira-chefe.   O hospital nada mais é que uma miniatura da sociedade exterior a ele. Lá dentro, os diferentes e os mais fracos são oprimidos por uma força superior que os comanda. Suas individualidades são massacradas para que a “ordem” seja estabelecida.

“(…) Tudo aquilo que deveria ser normalizado para que o sistema social pudesse se reproduzir com indivíduos conformistas e obedientes”.

Eis que surge então o rebelde, personificado em McMurphy que se torna uma ameaça para a ordem estabelecida.  É ele quem mostra a realidade. Ele quem diz o que está errado com o sistema quem que esses indivíduos vivem. E é ele quem os inspira. Os faz passar a ter mais liberdade e coragem.  Esse rebelde é quem representam uma ameaça à sociedade e aos interesses dos que tem poder. E é por isso que a enfermeira Ratched se torna inimiga declarada de McMurphy.

            Para refletir. Para pensar. Para contestar. Um Estranho no Ninho foi considerado um dos livros percussores do movimento da contracultura e ele nos faz refletir sobre qual a verdadeira face da loucura e se a sociedade em que estamos inseridos realmente nos respeita.Mas, mesmo que McMurphy muitas vezes tenha um comportamento repreensível,  podemos nos inspirar nele para lutar pelo que acreditamos ser o certo e contra o que nos oprime.

Recomendação pessoal:
Um Estranho No Ninho, filme de 1975, dirigido por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson. Excelente adaptação da obra de Ken Kesey, o filme foi vencedor de 5 Oscars incluindo Melhor Filme. 

Por: Virgínia
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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Versos Íntimos – Augusto dos Anjos

2 jan

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente invevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
o beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!


Recomendação Pessoal: Eu, o único livro de poesia do paraibano Augusto dos Anjos, publicado em 1912 no Rio de Janeiro. O autor mistura simbolismos e muitas vezes expressões cientificistas, utilizando alguns termos que causavam repulsa a grande parte dos leitores da época. Atingiu um grande sucesso apenas após a sua morte.

Por: Virgínia Fróes
De:Natal – RN
Email:virginia@revistafriday.com.br

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Resenha: Coisas Frágeis – Neil Gaiman

19 dez
“‘Acho que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, do que uma vida gasta evitando a dívida moral. {…} E me perguntei a que me referia com ‘coisas frágeis’. Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. 

Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também”.
E é assim que Neil Gaiman, famoso escritor, roteirista e quadrinista britânico, explica de onde surgiu o título de sua antologia de contos e poemas,“Coisas Fragéis”. Misturando sonhos, lembranças, músicas, contos de fadas e até mesmo personagens de outras obras, o livro traz o melhor da fantástica escrita de Gaiman. Publicado no Brasil pela Conrad Editora, o livro foi dividido em dois volumes. O primeiro contêm apenas contos e historias curtas e o segundo traz, na minha opinião, as melhores poesias do autor.

Coisas Frágeis – Volume 01
 A tradução do volume 01 foi lançado em 2008 e por algum motivo que não foi esclarecido, não foi informado que haveria um segundo volume, decepcionando muitos dos fãs que conheciam a obra em inglês, pois todos os contos não estavam presentes nessa edição. Entretanto, o livro traz historias excelentes. O talento de Neil Gaiman para criar coisas fantásticas reflete muito bem em sua capacidade de contar historias curtas. Cheios de fantasia e algumas vezes assustadores, os contos tem um clima sombrio as vezes remetendo até a Edgar Allan Poe. Apesar disso, a narrativa é leve, com um humor negro, fazendo referências a seres mitologicos e personagens literários. Os contos que mais gostei foram:

– Um Estudo em Esmeralda – Imagine Sir Arthur Conan Doyle e H.P. Lovecraft juntos. É toda a lógica de Sherlock Holmes juntamente com o terror das histórias de Lovecraft. Um conto especial, cheio de referências as obras do famoso detetive inglês junto com seres mitológicos. Um assassinato de um membro da realeza que não é o que parece. E nem a realeza.

– GoliasEsse foi escrito especialmente para o lançamento de Matrix, ou seja, toda as ideias presentes no filme estão presentes nessa história. Ela fala sobre um homem que um dia, a partir de um erro das maquinas que monitoram Londres, percebe que o mundo onde vive é uma farsa. Uma interpretação emocionante da filosofia do filme.

Coisas Frágeis – Volume 02Em 2010, para a felicidade dos leitores, o volume 2 foi lançando. Esse livro apresenta alguns dos maravilhosos poemas de Neil Gaiman, incluindo meu favorito de sua autoria, “O Dia Em que Os Discos Voadores Chegaram.” A beleza da poesia de Gaiman consegue transmitir as mesmas excelentes características de sua prosa. Os contos desse volume também são incriveis, atingindo um patamar mais emocional e pessoal do que volume anterior. Escolhi os seguintes:

-Noivas Proibidas dos Escravos Sem Rosto Na Casa Secreta Na Noite do Temível Desejo. – Um título enorme para um conto curto não o desmerece. É uma historia de terror com elementos caracteristicos desse gênero contada de um jeito especial. Um escritor está fadado a não conseguir escrever algo satisfatório e uma mocinha que está fadada a, bem…
O suspense faz parte.

-Os Outros  – Uma história sobre o inferno. Sim. Sobre a danação eterna e suas punições. O que será do homem quando elas terminarem? Mas, lembre-se: “O Tempo é fluido aqui.”

O Dia dos Namorados do Arlequim  – É dia dos namorados e o Arlequim entrega seu coração a uma moça pra que ela seja sua colombina. A moça carrega-o consigo e o Arlequim caminha durante toda a cidade buscando uma resposta para os seus sentimentos. O texto é repleto de referências a Commedia Dell’Arte e seus personagens no mundo moderno. Contando sua história o Arlequim se revela um personagem interessante. As vezes quase um Pierrot.

O Dia em Que Os Discos Voadores Chegaram Aliens. Zumbis. Deuses. Demônios. Neil Gaiman conseguiu unir todas essas coisas em um ótimo poema.

Falei apenas dos meus contos favoritos mas todos valem muito a pena serem lidos. Coisas Frágeis, em ambos os volumes, nos mostra a capacidade de Gaiman de transportar o leitor para mundos diferentes.  São historias belas, envolventes que por muitas vezes revelam seus personagens como sendo algo muito maior.


Recomendação Pessoal:
Sandman, quadrinho escrito por Neil Gaiman e ilustrado por diversos artistas diferentes. Publicado primeiramente em 1988 pela Vertigo, 
Sandman conta a história de Morpheus (ou a personificação do Sonho) e é a única história em quadrinhos que já ganhou o World Fantasy Award. Tomei tanto gosto pela história que aumentou minha vontade não só para os livros de Neil Gaiman como também para outros quadrinhos.

Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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Poema: Bluebird – Charles Bukowski

19 nov
Poema retirado do livro The Last Night of the Earth Poems. Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, fica aí, não vou
deixar ninguém te
ver

Há um pássaro azul no meu peito que

quer sair
mas eu meto uísque nele e dou um 
trago no meu cigarro
e as putas e os garçons
e os balconistas dos mercados
nunca percebem que
ele está
aqui dentro

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, 
fica quieto, você quer zoar
comigo?
Quer ferrar com meu
trabalho?
Quer acabar com a venda dos meus livros na
Europa?

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
à noite, às vezes
enquanto todo mundo está dormindo
eu digo, eu sei que você está aí
não fique
chateado
então o ponho de volta
mas ele canta um pouco
aqui dentro, não o deixei realmente
morrer
e dormimos juntos 
assim
no nosso
pacto secreto
e isso é o bastante pra
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

Recomendação Pessoal: Existem ótimos videos e animações que foram feitas pra esse poema. A minha favorita, particularmente é essa daqui: http://www.youtube.com/watch?v=YLxuN7EbOBE que combina frases do poema com elementos reais nas cenas. 


Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
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RESENHA: O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón

29 out

Carlos Ruiz Zafón é um escritor barcelonense que atingiu fama mundial com A Sombra do Vento, que foi traduzido para mais de 30 idiomas e vendeu mais de 10 milhões de copias ao redor do mundo. Seu segundo romance adulto, O Jogo do Anjo, foi publicado em 2008 e se tornou um sucesso de vendas atingindo rapidamente a quantia de 1 milhão de exemplares vendidos. A historia da obra se passa alguns anos antes dos acontecimentos de A Sombra do Vento, por isso é possível ver personagens e lugares em comum como Os Sempere e sua livraria, Gustavo Barceló e é claro, O Cemitério de Livros Esquecidos. Além disso, a Barcelona gótica de Zafón é usada mais uma vez como plano de fundo, ainda mais misteriosa.
David Martin tem 28 anos. É escritor e ama os livros mais do que qualquer coisa. Talvez menos do que Cristina, seu grande amor, que acabou por se relacionar com o Pedro Vidal, seu amigo e benfeitor. David também ama escrever e sempre sonhou ver seu nome publicado na capa de um livro, mas vende seu talento barato e acaba por escrever livros com pseudônimo de Ignatius B. Samson. Cínico e amargo, David acaba por escolher viver sozinho em um macabro casarão em ruínas, mas descobre que está muito doente e tem apenas poucos meses de vida. Eis que surge em sua vida, Andreas Corelli, um misterioso editor de livros que oferece uma proposta tentadora a Martin: Muito dinheiro e talvez até mesmo a sua saúde de volta. Mas quem é esse estranho e como ele conseguirá fazer isso?
            O Jogo do Anjo tem um caráter consideravelmente mais obscuro que A Sombra do Vento. Esse lado sombrio é primeiramente visto com o protagonista, David Martín, abandonado pela mãe e vivendo com um pai violento que em meio a sua frustração acabava por impedi-lo de ler os livros que tanto o faziam feliz. Ele viu o pai ser assassinado na sua frente e acabou por trabalhar em um jornal local para sobreviver, o que não o torna, de maneira alguma, inocente como Daniel Sempere. Em segundo lugar, o livro tem um tom muito mais gótico que o primeiro, com muito mais mistério e um toque de sobrenatural. Algo aconteceu aos antigos moradores do casarão onde David agora vive e parece que o mesmo pode acontecer com ele.  Mistérios e suspense. Um livro mais macabro onde existem mais sombras do que se aparenta.
Mas não é só de David que se trata esse livro. Os coadjuvantes também roubam a cena em muitas ocasiões principalmente o senhor Sempere (O avô do Daniel) e Isabela, uma moça geniosa que serve como assistente e confidente de David. Ambos têm um carinho muito grande pelo nosso protagonista apesar dele sempre fingir que não se importa com nada, o que acaba rendendo muitos bons momentos no livro. Alguns engraçados e outros extremamente tocantes. Além disso, há Andreas Corelli que acaba por se tornar uma incógnita, pois nunca sabemos de que lado ele realmente está.
Com um final muito enigmático que permite o leitor tirar suas próprias conclusões (o que chega até a desagradar a muitos) O Jogo do Anjo trata de escritores malditos, livros esquecidos, amor, mistério e principalmente a amizade. Foram os livros que salvaram David quando ele era apenas uma criança e são eles que vão salva-lo agora. Ou pelo menos é nisso que ele acredita.

Título: O Jogo do Anjo (El Juego Del Angel)

Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
Ano da primeira 1ª edição: 2004
Número de páginas: 400 
Recomendação pessoal: Conhecer Barcelona. Tudo bem. Eu nunca estive em Barcelona. Mas Zafón descreve a cidade de uma maneira tão singular e tão mágica que é impossível não ter a vontade de conhecer todos os lugares que ele descreve em seus livros.

Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
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Resenha: Misto-Quente – Charles Bukowski

8 out

Henry Charles Bukowski, foi um escritor e poeta nascido na Alemanha no ano de 1920 mas criado na América, onde faleceu aos 73 anos. Com uma infância difícil, uma adolescência árdua e uma vida adulta miserável, Bukowski encontrou na literatura e principalmente no álcool, uma forma de escape e também uma forma de mostrar a sua visão de uma sociedade que o rejeitava. Tendo Hemingway e Dostoievski como principais influências, Bukowski foi rejeitado inúmeras vezes por várias editoras que consideravam sua escrita suja, pornográfica e ofensiva. Escrevendo incansavelmente, bebendo descontroladamente e vivendo de pequenos empregos, Bukowski acabou por publicar seus textos e gradualmente acabou se tornando um dos autores favoritos de uma geração que precisava se identificar com os livros que lia.
Misto-Quente conta a história de Henry Chinaski, alter-ego de Buwowski e personagem que constantemente aparece em seus livros. Henry é alemão, mas veio para os EUA com apenas três anos. Seu pai é um homem autoritário que o espanca sem motivos e só se preocupa com a imagem de sua família enquanto sua mãe passivamente assiste. Henry sofre também na escola. Os outros garotos o odeiam e sempre batem nele. Os professores acreditam que ele não tem futuro nenhum e os únicos que se aproximam são aqueles tão perdidos quanto ele. Em casa falta dinheiro e sobra a repressão. Não existe nenhuma perspectiva para o futuro, há apenas a possibilidade de servir como mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Rejeitado, excluído e maltratado, a única coisa que Henry pode fazer e se refugiar nos textos que escreve.
            A obra foi publicada primeiramente em 1982 e tem tantos traços autobiográficos de autor que é difícil afirmar com certeza o que é realidade e o que é ficção. Trata-se principalmente da falta de dinheiro, o gosto pela solidão, a crítica ao American Way of Life, brigas de adolescentes, a bebida, o cigarro e a escrita como válvula de escape. É impossível ser indiferente a Bukowski quando é possível se identificar com tantos pensamentos de Henry. Chinaski é amargo, cheio de solidão, raiva e tristeza e consegue exprimir isso de uma maneira única. Toda angustia de um adolescente obrigado a viver com um pai repressivo e uma mãe apática. Henry tem seus sonhos, desejos, sofrimentos e anseios e tenta sobreviver em uma sociedade embrutecida onde ele mesmo é considerado um excluído. Mas, Chinaski jamais aceita isso de cabeça baixa. Seja enfrentando os valentões da escola, seja tentando conseguir mais pontos no baseball ou até mesmo enfrentando seu pai dentro da própria casa, Henry através de seus textos tenta esvaziar tudo que há dentro dele e que teimosamente insiste em sair. Seus textos a principio são um fracasso de acordo com os editores. Mas Chinaski é simplesmente duro e raivoso demais para desistir com facilidade.
Uma leitura dinâmica, mas que consegue deixar os mais impressionáveis chocados. Mas nem tudo é tristeza e amargura.  A ironia acida de Bukowski e um humor que não pode ser nada menos que negro estão presentes sempre, rendendo algumas gargalhadas. É sujo e cru. É o clássico Bukowski.

Recomendação pessoal: Factotum também do Bukowski. O livro funciona mais ou menos como uma sequência de Misto Quente. Henry Chinaski está na vida adulta, tentando escrever, bebendo como nunca e sobrevivendo de bicos. Seus pensamentos não mudaram muita coisa então vale muito a pena ler.

Título: Misto-Quente (Ham on Rye)
Autor: Charles Bukowski
Editora: L&PM
Ano: 2005
Número de páginas: 316


Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
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CINCO LIVROS – O FUTURO E O TOTALITARISMO

24 set

Aqui vai uma lista de 5 livros que tratam sobre sociedades do futuro que são oprimidas por um governo totalitário. Com a exceção de Jogos Vorazes, os livros foram escritos há bastante tempo como uma forma de avisar aos leitores sobre o futuro que os aguarda. Mas, será que esse futuro já chegou?

  • 1984

Escrito por George Orwell em 1949 trata de uma sociedade onde o governo totalitário e opressivo é liderado pelo Grande Irmão (Big Brother em inglês). Winston Smith, funcionário do governo, trabalha com a falsificação e manipulação de informações publicas de forma que o regime do país esteja sempre correto. Desiludido com seu país, seu governo e sua vida miserável, Winston decide se rebelar juntamente a Júlia, com quem mantêm um relacionamento em segredo e O’Brien, membro dopartido que se apresenta ao protagonista como membro de uma resistência. Mas, cuidado! O Grande Irmão está em toda parte e está de olho em você.
“Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força.”
  • ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Publicado em 1932 e escrito por Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo trata de um futuro onde as pessoas são pre-condicionadas biologicamente desde de seu nascimento (tudo isso realizado em gigantescos e modernos laboratórios) para se comportar de acordo com as leis e regras de suas respectivas “castas”. Qualquer dúvida e insegurança por parte dos cidadãos é dissipada por meio do uso de uma droga chamada Soma. Entretanto, Bernard Marx ainda se sente insatisfeito com o mundo onde vive e excluído por ser diferente das pessoas de sua casta. Assim, em uma viagem a uma “reserva indígena” onde as pessoas ainda preservam os costumes do passado, Bernard encontra uma mulher proveniente da civilização que teve um filho de maneira natural, algo totalmente inaceitável para a época. Bernard, dessa forma leva o rapaz para a civilização de forma a conseguir o respeito de seus semelhantes. As ideias e os costumes do “selvagem” acabam criando um fascínio por parte da população e rapaz acaba por se envolver demais nesse novo mundo.
“Posso simpatizar com a dor de uma pessoa, mas não com os seus prazeres. Há algo de rigorosamente monótono na felicidade dos outros.”
  • JOGOS VORAZES

A trilogia criada por Suzanne Collins em 2008 narra a vida de Katniss Everdeen, uma garota de 16 anos,habitante do que antes havia sido a América do Norte, hoje chamada de Panem. O país, destruído e reconstruído várias vezes apos guerras e conflitos é divido em 12 distritos, cada um com uma atividade que contribui economicamente para a Capital. Para evitar rebeliões e manter a população em controle, a Capital promove todos os anos os chamados “Jogos Vorazes” uma espécie de reality show onde jovens de 12 a 18 anos são escolhidos como tributos e devem lutar até a morte em uma arena onde só um poderá ser o vencedor. Fome, violência, opressão e morte. Para o governo, tudo é apenas um jogo.
“Eu continuo apenas pensando em um jeito que eu possa mostrar a Capital que eu não pertenço a eles. Que eu sou mais do que apenas uma peça no jogo deles.”

  • FAHRENHEIT 451

Escrito por Ray Bradbury (que infelizmente faleceu em junho desse ano) Fahrenheit 451 foi publicado primeiramente em 1953. Em um futuro onde todos os livros são estritamente proibidos, o pensamento critico é oprimido, a tecnologia reina e as pessoas são facilmente manipuláveis. Guy Montag, o protagonista, trabalha como bombeiro, queimando livros a temperatura de 451 graus fahrenheit. Montag começa a questionar a situação após a tentativa de suicídio de sua esposa e após roubar um livro da casa de uma velha senhora. A partir dai a curiosidade de Montag sobre os livros torna-se irrefreável, criando conflitos com o chefe dos bombeiros e com sua esposa e o fazendo roubar mais livros até que é traído e tem que fugir. Mas quem abrigaria um ex-bombeiro carregando algo proibido?
“Um livro é como uma arma carregada que está na casa ao lado. Queime-o.”
  • LARANJA MECÂNICA

Mais conhecido pelo filme de Stanley Kubric, Laranja Mecânica é originalmente um livro escrito por Anthony Burgess em 1962. O livro é narrado em primeira pessoa pelo protagonista Alex, um jovem de 14 anos fã de Beethoven e líder uma gangue de delinqüentes responsável por estupros, roubos e violência. Após uma invasão a casa de uma mulher e seu conseqüente assassinato, Alex é preso e passa a ser usado em uma experiência promovida pelo Estado e conhecida pelo nome de método Ludovico. Tal método trata de uma lobotomia onde Alex passa a ter uma aversão mortal a qualquer forma de violência. Alex torna-se uma ferramenta para promover o Estado. A violência sendo combatida pela agressividade totalitária de um governo.
“Mas o não-ser não pode aceitar o mal, quer dizer, os do governo, os juízes e os colégios não podem permitir o mal porque não podem permitir a individualidade.”

Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
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O Coração Delator – Edgar Allan Poe

17 set
Conto retirado do livro ‘Histórias Extraordinárias” publicado pela editora Companhia das Letras em 2008.


É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre – um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça. Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.

Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.

Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:

— Quem está aí?

Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.

Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: “Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão”, ou “É só um grilo cricrilando um pouco”. É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.

Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.

Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza – todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.

E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.

Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele deu um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.

Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.

Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo – ha! ha!

Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.
Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.

Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia – e o que eu podia fazer? Era um som baixo,surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! – Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!

— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!

Recomendação pessoal: Assistir a animação A Tell Tale Heart produzida pela UPA Productions em 1953. Mesmo sendo bem antiga, esse curta tem narração e efeitos sonoros incriveis. Segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=W4s9V8aQu4c


Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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Resenha: Eu Sou O Mensageiro – Markus Zusak

10 set

            Markus Zusak é um escritor australiano nascido no ano de 1975, famoso pelo best-seller “A Menina que Roubava Livros”, lançado em 2006 e que se tornou um fenômeno literário. Aos 30 anos foi considerado um dos mais inovadores romancistas da atualidade. Eu Sou O Mensageiro, também de sua autoria, foi publicado pela primeira vez em 2003.
 Ed Kennedy tem 19 anos e é taxista. Vive uma vizinhança medíocre com seu cão velho ,lê mais livros do que deveria, está apaixonado por sua melhor amiga e não tem nenhuma espécie de ambição ou perspectiva em sua vida, como sua mãe gosta de lembrá-lo sempre. As coisas são sempre as mesmas até que em um arroubo de coragem inexplicável, Ed consegue impedir um assalto a banco e ganha seu dia de fama com a imprensa local. É a partir dai que ele começa a receber estranhas cartas de baralho pelo correio contendo endereços ou pistas a serem decifradas. Um pouco hesitante e bastante inseguro, Ed começa a visitar os endereços escritos nas cartas e realizar várias missões em cada um desses lugares e que o levam a conhecer pessoas que de alguma maneira necessitam de sua ajuda.
Narrado em primeira pessoa, o livro apresenta uma linguagem muito clara e sem rodeios, às vezes até com alguns palavrões e gírias de modo que o leitor pareça estar mesmo conversando com o protagonista. Ed pode parecer à primeira vista um herói bastante incomum. Como ele mesmo se define, é covarde, não fez faculdade, é péssimo com as mulheres e também não é bom com jogos de cartas. Mas, apesar de não saber quem está enviando as cartas, ele decide cumprir seu papel. É a partir daí que você já reconhece o valor que há no jovem Ed Kennedy. Ele poderia ter apenas ignorado a carta e continuado a sua vida, mas ele fez sua escolha e decidiu que finalmente era a hora de agir. O que Zusak nos faz ver realmente é que qualquer um de nós tem potenciais para mudar o mundo e, principalmente, mudar nós mesmos.
          Além de toda das mensagens inseridas na historia, a obra prende o leitor e o deixa ansioso pelo cumprimento de cada tarefa. Afinal, assim como o protagonista, queremos saber quem está enviando as cartas de baralho e porque logo Ed foi o escolhido. Eu Sou O Mensageiro é além de tudo uma historia de autoconhecimento, um livro que através das historias das pessoas ajudadas por Ed mostram a beleza e a alegria que há nos pequenos gestos de gentileza e compaixão.

Título: Eu Sou O Mensageiro (I Am The Messenger)
Autor: Markus Zusak
Editora: Intríseca
Ano: 2007
Número de páginas: 318

Recomendação pessoal: Saia por aí e faça alguma coisa boa para alguém mesmo que não tenha recebido nenhuma carta de baralho pelo correio. Pode parecer besteira, mas vai mudar a sua vida pelo menos um pouquinho.


Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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