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O Contribuinte – Ray Bradbury

30 jan
(Texto retirado do livro “As Crônicas Marcianas” publicado em2005 pela Editora Globo)

        Ele queria ir a Marte a bordo do foguete. Foi até o campo de lançamento bem cedo de manhã e gritou através da cerca de arame, para os homens de uniforme, que ele queria ir a Marte. Disse a eles que era contribuinte, pagava seus impostos em dia, chamava-se Pritchard,e tinha direito de ir a Marte. Pois não tinha nascido bem ali, no Ohio? Pois não era um bom cidadão? Então, por que não podia ir a Marte? Sacudiu os punhos fechados na direção deles  e lhes disse que queria ir embora da Terra; qualquer pessoa sensata queria ir embora da Terra. Dali a uns dois anos haveria uma enorme guerra atômica na Terra,e ele não queria estar lá quando isso acontecesse. Ele e milhares de outras pessoas como ele se tivessem alguma sensatez, iriam para Marte. Pergunte-lhes se não iriam! Para fugir das guerras, da censura, da estatização, da conscrição  e do controle do governo sobre isso e sobre aquilo, sobre a arte e a ciência! Vocês podem ficar com a Terra! Estava oferecendo sua mão direita boa, seu coração, sua cabeça pela oportunidade de ir a Marte! O que era preciso fazer, onde era preciso assinar, quem era preciso conhecer, para embarcar no foguete?
      Riram dele através da tela de arame. Ele não queria ir a Marte coisa nenhuma, foi o que disseram. Por acaso ele não sabia que a Primeira e a Segunda Expedição tinham falhado, desaparecido? Que os homens provavelmente estavam mortos?
      Mas eles não podiam provar nada, não tinha certeza, ele retrucou, agarrando-se a cerca de arame. Talvez  lá em cima existisse um lugar cheio de leite e mel, e o capitão York e o capitão Williams simplesmente não tivessem se dado ao trabalho de voltar. Agora, será que eles podiam fazer o favor de abrir os portões  e deixá-lo embarcar no Terceiro Foguete Expedicionário, ou teria de derrubá-los a chutes?

     Eles o mandaram calar a boca.

 
Ele viu os homens se dirigindo ao foguete.
-Esperem por mim! – gritou – Não me deixem aqui nesse mundo terrível, preciso ir embora; uma guerra atômica sera deflagrada! Não me deixem na Terra!
     Arrastaram-no , aos chutes e pontapés, para longe. Baterão a porta do furgão da policia e o levaram embora naquela manhã bem cedinho, o rosto pressionado contra a janela traseira , e, no momento exato em que a sirene tocava bem no alto de uma colina, viu o fogo vermelho e ouviu o estrondo. Sentiu o enorme tremor quando o foguete prateado subiu e o deixou para trás em uma manhã de segunda-feira ordinária, no planeta Terra, tão ordinário.

Recomendação pessoal: Se você já tiver lido As Crônicas Marcianas, aproveite também para dar uma olhada na Graphic Novel baseada no livro e desenhada por Dennis Calero. Alguns contos do livro são transformados em quadrinhos sensacionais, acompanhadas de uma introdução feita pelo próprio Bradbury.

       
Por:Virgínia Fróes
De:Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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RESENHA: Um Estranho no Ninho – Ken Kesey

16 jan

            Ken Kesey é um escritor americano nascido em 1935 no estado do Colorado.  A sua obra mais famosa, Um Estranho no Ninho, é um clássico da contracultura dos anos 60 e foi inspirado nas experiências do autor como pesquisador em um centro psiquiátrico para veteranos de guerra.
O livro conta a história de R.P. McMurphy, que é preso e para escapar da cadeia, finge-se de louco e acaba por ser internado em um hospital psiquiátrico, acreditando que lá as coisas serão mais fáceis. Entretanto, ele descobre que os internos são controlados e reprimidos de maneiras terríveis.  Por se rebelar e tentar melhoras as coisas dentro do hospital, McMurphy se torna o ídolo de seus companheiros, mas acaba por atrair também a inimizade da opressora enfermeira Ratched.
            O livro tem a sua historia em primeira pessoa, contada pelo Chefe um índio que é um dos pacientes da instituição. É a partir de seus pensamentos e opiniões que se pode ver como realmente é o hospital e seus funcionários, incluindo a temida enfermeira-chefe.   O hospital nada mais é que uma miniatura da sociedade exterior a ele. Lá dentro, os diferentes e os mais fracos são oprimidos por uma força superior que os comanda. Suas individualidades são massacradas para que a “ordem” seja estabelecida.

“(…) Tudo aquilo que deveria ser normalizado para que o sistema social pudesse se reproduzir com indivíduos conformistas e obedientes”.

Eis que surge então o rebelde, personificado em McMurphy que se torna uma ameaça para a ordem estabelecida.  É ele quem mostra a realidade. Ele quem diz o que está errado com o sistema quem que esses indivíduos vivem. E é ele quem os inspira. Os faz passar a ter mais liberdade e coragem.  Esse rebelde é quem representam uma ameaça à sociedade e aos interesses dos que tem poder. E é por isso que a enfermeira Ratched se torna inimiga declarada de McMurphy.

            Para refletir. Para pensar. Para contestar. Um Estranho no Ninho foi considerado um dos livros percussores do movimento da contracultura e ele nos faz refletir sobre qual a verdadeira face da loucura e se a sociedade em que estamos inseridos realmente nos respeita.Mas, mesmo que McMurphy muitas vezes tenha um comportamento repreensível,  podemos nos inspirar nele para lutar pelo que acreditamos ser o certo e contra o que nos oprime.

Recomendação pessoal:
Um Estranho No Ninho, filme de 1975, dirigido por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson. Excelente adaptação da obra de Ken Kesey, o filme foi vencedor de 5 Oscars incluindo Melhor Filme. 

Por: Virgínia
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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Versos Íntimos – Augusto dos Anjos

2 jan

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente invevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
o beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!


Recomendação Pessoal: Eu, o único livro de poesia do paraibano Augusto dos Anjos, publicado em 1912 no Rio de Janeiro. O autor mistura simbolismos e muitas vezes expressões cientificistas, utilizando alguns termos que causavam repulsa a grande parte dos leitores da época. Atingiu um grande sucesso apenas após a sua morte.

Por: Virgínia Fróes
De:Natal – RN
Email:virginia@revistafriday.com.br

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Resenha: Coisas Frágeis – Neil Gaiman

19 dez
“‘Acho que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, do que uma vida gasta evitando a dívida moral. {…} E me perguntei a que me referia com ‘coisas frágeis’. Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. 

Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também”.
E é assim que Neil Gaiman, famoso escritor, roteirista e quadrinista britânico, explica de onde surgiu o título de sua antologia de contos e poemas,“Coisas Fragéis”. Misturando sonhos, lembranças, músicas, contos de fadas e até mesmo personagens de outras obras, o livro traz o melhor da fantástica escrita de Gaiman. Publicado no Brasil pela Conrad Editora, o livro foi dividido em dois volumes. O primeiro contêm apenas contos e historias curtas e o segundo traz, na minha opinião, as melhores poesias do autor.

Coisas Frágeis – Volume 01
 A tradução do volume 01 foi lançado em 2008 e por algum motivo que não foi esclarecido, não foi informado que haveria um segundo volume, decepcionando muitos dos fãs que conheciam a obra em inglês, pois todos os contos não estavam presentes nessa edição. Entretanto, o livro traz historias excelentes. O talento de Neil Gaiman para criar coisas fantásticas reflete muito bem em sua capacidade de contar historias curtas. Cheios de fantasia e algumas vezes assustadores, os contos tem um clima sombrio as vezes remetendo até a Edgar Allan Poe. Apesar disso, a narrativa é leve, com um humor negro, fazendo referências a seres mitologicos e personagens literários. Os contos que mais gostei foram:

– Um Estudo em Esmeralda – Imagine Sir Arthur Conan Doyle e H.P. Lovecraft juntos. É toda a lógica de Sherlock Holmes juntamente com o terror das histórias de Lovecraft. Um conto especial, cheio de referências as obras do famoso detetive inglês junto com seres mitológicos. Um assassinato de um membro da realeza que não é o que parece. E nem a realeza.

– GoliasEsse foi escrito especialmente para o lançamento de Matrix, ou seja, toda as ideias presentes no filme estão presentes nessa história. Ela fala sobre um homem que um dia, a partir de um erro das maquinas que monitoram Londres, percebe que o mundo onde vive é uma farsa. Uma interpretação emocionante da filosofia do filme.

Coisas Frágeis – Volume 02Em 2010, para a felicidade dos leitores, o volume 2 foi lançando. Esse livro apresenta alguns dos maravilhosos poemas de Neil Gaiman, incluindo meu favorito de sua autoria, “O Dia Em que Os Discos Voadores Chegaram.” A beleza da poesia de Gaiman consegue transmitir as mesmas excelentes características de sua prosa. Os contos desse volume também são incriveis, atingindo um patamar mais emocional e pessoal do que volume anterior. Escolhi os seguintes:

-Noivas Proibidas dos Escravos Sem Rosto Na Casa Secreta Na Noite do Temível Desejo. – Um título enorme para um conto curto não o desmerece. É uma historia de terror com elementos caracteristicos desse gênero contada de um jeito especial. Um escritor está fadado a não conseguir escrever algo satisfatório e uma mocinha que está fadada a, bem…
O suspense faz parte.

-Os Outros  – Uma história sobre o inferno. Sim. Sobre a danação eterna e suas punições. O que será do homem quando elas terminarem? Mas, lembre-se: “O Tempo é fluido aqui.”

O Dia dos Namorados do Arlequim  – É dia dos namorados e o Arlequim entrega seu coração a uma moça pra que ela seja sua colombina. A moça carrega-o consigo e o Arlequim caminha durante toda a cidade buscando uma resposta para os seus sentimentos. O texto é repleto de referências a Commedia Dell’Arte e seus personagens no mundo moderno. Contando sua história o Arlequim se revela um personagem interessante. As vezes quase um Pierrot.

O Dia em Que Os Discos Voadores Chegaram Aliens. Zumbis. Deuses. Demônios. Neil Gaiman conseguiu unir todas essas coisas em um ótimo poema.

Falei apenas dos meus contos favoritos mas todos valem muito a pena serem lidos. Coisas Frágeis, em ambos os volumes, nos mostra a capacidade de Gaiman de transportar o leitor para mundos diferentes.  São historias belas, envolventes que por muitas vezes revelam seus personagens como sendo algo muito maior.


Recomendação Pessoal:
Sandman, quadrinho escrito por Neil Gaiman e ilustrado por diversos artistas diferentes. Publicado primeiramente em 1988 pela Vertigo, 
Sandman conta a história de Morpheus (ou a personificação do Sonho) e é a única história em quadrinhos que já ganhou o World Fantasy Award. Tomei tanto gosto pela história que aumentou minha vontade não só para os livros de Neil Gaiman como também para outros quadrinhos.

Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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Poema: Bluebird – Charles Bukowski

19 nov
Poema retirado do livro The Last Night of the Earth Poems. Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, fica aí, não vou
deixar ninguém te
ver

Há um pássaro azul no meu peito que

quer sair
mas eu meto uísque nele e dou um 
trago no meu cigarro
e as putas e os garçons
e os balconistas dos mercados
nunca percebem que
ele está
aqui dentro

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, 
fica quieto, você quer zoar
comigo?
Quer ferrar com meu
trabalho?
Quer acabar com a venda dos meus livros na
Europa?

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
à noite, às vezes
enquanto todo mundo está dormindo
eu digo, eu sei que você está aí
não fique
chateado
então o ponho de volta
mas ele canta um pouco
aqui dentro, não o deixei realmente
morrer
e dormimos juntos 
assim
no nosso
pacto secreto
e isso é o bastante pra
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

Recomendação Pessoal: Existem ótimos videos e animações que foram feitas pra esse poema. A minha favorita, particularmente é essa daqui: http://www.youtube.com/watch?v=YLxuN7EbOBE que combina frases do poema com elementos reais nas cenas. 


Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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RESENHA: O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón

29 out

Carlos Ruiz Zafón é um escritor barcelonense que atingiu fama mundial com A Sombra do Vento, que foi traduzido para mais de 30 idiomas e vendeu mais de 10 milhões de copias ao redor do mundo. Seu segundo romance adulto, O Jogo do Anjo, foi publicado em 2008 e se tornou um sucesso de vendas atingindo rapidamente a quantia de 1 milhão de exemplares vendidos. A historia da obra se passa alguns anos antes dos acontecimentos de A Sombra do Vento, por isso é possível ver personagens e lugares em comum como Os Sempere e sua livraria, Gustavo Barceló e é claro, O Cemitério de Livros Esquecidos. Além disso, a Barcelona gótica de Zafón é usada mais uma vez como plano de fundo, ainda mais misteriosa.
David Martin tem 28 anos. É escritor e ama os livros mais do que qualquer coisa. Talvez menos do que Cristina, seu grande amor, que acabou por se relacionar com o Pedro Vidal, seu amigo e benfeitor. David também ama escrever e sempre sonhou ver seu nome publicado na capa de um livro, mas vende seu talento barato e acaba por escrever livros com pseudônimo de Ignatius B. Samson. Cínico e amargo, David acaba por escolher viver sozinho em um macabro casarão em ruínas, mas descobre que está muito doente e tem apenas poucos meses de vida. Eis que surge em sua vida, Andreas Corelli, um misterioso editor de livros que oferece uma proposta tentadora a Martin: Muito dinheiro e talvez até mesmo a sua saúde de volta. Mas quem é esse estranho e como ele conseguirá fazer isso?
            O Jogo do Anjo tem um caráter consideravelmente mais obscuro que A Sombra do Vento. Esse lado sombrio é primeiramente visto com o protagonista, David Martín, abandonado pela mãe e vivendo com um pai violento que em meio a sua frustração acabava por impedi-lo de ler os livros que tanto o faziam feliz. Ele viu o pai ser assassinado na sua frente e acabou por trabalhar em um jornal local para sobreviver, o que não o torna, de maneira alguma, inocente como Daniel Sempere. Em segundo lugar, o livro tem um tom muito mais gótico que o primeiro, com muito mais mistério e um toque de sobrenatural. Algo aconteceu aos antigos moradores do casarão onde David agora vive e parece que o mesmo pode acontecer com ele.  Mistérios e suspense. Um livro mais macabro onde existem mais sombras do que se aparenta.
Mas não é só de David que se trata esse livro. Os coadjuvantes também roubam a cena em muitas ocasiões principalmente o senhor Sempere (O avô do Daniel) e Isabela, uma moça geniosa que serve como assistente e confidente de David. Ambos têm um carinho muito grande pelo nosso protagonista apesar dele sempre fingir que não se importa com nada, o que acaba rendendo muitos bons momentos no livro. Alguns engraçados e outros extremamente tocantes. Além disso, há Andreas Corelli que acaba por se tornar uma incógnita, pois nunca sabemos de que lado ele realmente está.
Com um final muito enigmático que permite o leitor tirar suas próprias conclusões (o que chega até a desagradar a muitos) O Jogo do Anjo trata de escritores malditos, livros esquecidos, amor, mistério e principalmente a amizade. Foram os livros que salvaram David quando ele era apenas uma criança e são eles que vão salva-lo agora. Ou pelo menos é nisso que ele acredita.

Título: O Jogo do Anjo (El Juego Del Angel)

Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
Ano da primeira 1ª edição: 2004
Número de páginas: 400 
Recomendação pessoal: Conhecer Barcelona. Tudo bem. Eu nunca estive em Barcelona. Mas Zafón descreve a cidade de uma maneira tão singular e tão mágica que é impossível não ter a vontade de conhecer todos os lugares que ele descreve em seus livros.

Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
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Resenha: Misto-Quente – Charles Bukowski

8 out

Henry Charles Bukowski, foi um escritor e poeta nascido na Alemanha no ano de 1920 mas criado na América, onde faleceu aos 73 anos. Com uma infância difícil, uma adolescência árdua e uma vida adulta miserável, Bukowski encontrou na literatura e principalmente no álcool, uma forma de escape e também uma forma de mostrar a sua visão de uma sociedade que o rejeitava. Tendo Hemingway e Dostoievski como principais influências, Bukowski foi rejeitado inúmeras vezes por várias editoras que consideravam sua escrita suja, pornográfica e ofensiva. Escrevendo incansavelmente, bebendo descontroladamente e vivendo de pequenos empregos, Bukowski acabou por publicar seus textos e gradualmente acabou se tornando um dos autores favoritos de uma geração que precisava se identificar com os livros que lia.
Misto-Quente conta a história de Henry Chinaski, alter-ego de Buwowski e personagem que constantemente aparece em seus livros. Henry é alemão, mas veio para os EUA com apenas três anos. Seu pai é um homem autoritário que o espanca sem motivos e só se preocupa com a imagem de sua família enquanto sua mãe passivamente assiste. Henry sofre também na escola. Os outros garotos o odeiam e sempre batem nele. Os professores acreditam que ele não tem futuro nenhum e os únicos que se aproximam são aqueles tão perdidos quanto ele. Em casa falta dinheiro e sobra a repressão. Não existe nenhuma perspectiva para o futuro, há apenas a possibilidade de servir como mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Rejeitado, excluído e maltratado, a única coisa que Henry pode fazer e se refugiar nos textos que escreve.
            A obra foi publicada primeiramente em 1982 e tem tantos traços autobiográficos de autor que é difícil afirmar com certeza o que é realidade e o que é ficção. Trata-se principalmente da falta de dinheiro, o gosto pela solidão, a crítica ao American Way of Life, brigas de adolescentes, a bebida, o cigarro e a escrita como válvula de escape. É impossível ser indiferente a Bukowski quando é possível se identificar com tantos pensamentos de Henry. Chinaski é amargo, cheio de solidão, raiva e tristeza e consegue exprimir isso de uma maneira única. Toda angustia de um adolescente obrigado a viver com um pai repressivo e uma mãe apática. Henry tem seus sonhos, desejos, sofrimentos e anseios e tenta sobreviver em uma sociedade embrutecida onde ele mesmo é considerado um excluído. Mas, Chinaski jamais aceita isso de cabeça baixa. Seja enfrentando os valentões da escola, seja tentando conseguir mais pontos no baseball ou até mesmo enfrentando seu pai dentro da própria casa, Henry através de seus textos tenta esvaziar tudo que há dentro dele e que teimosamente insiste em sair. Seus textos a principio são um fracasso de acordo com os editores. Mas Chinaski é simplesmente duro e raivoso demais para desistir com facilidade.
Uma leitura dinâmica, mas que consegue deixar os mais impressionáveis chocados. Mas nem tudo é tristeza e amargura.  A ironia acida de Bukowski e um humor que não pode ser nada menos que negro estão presentes sempre, rendendo algumas gargalhadas. É sujo e cru. É o clássico Bukowski.

Recomendação pessoal: Factotum também do Bukowski. O livro funciona mais ou menos como uma sequência de Misto Quente. Henry Chinaski está na vida adulta, tentando escrever, bebendo como nunca e sobrevivendo de bicos. Seus pensamentos não mudaram muita coisa então vale muito a pena ler.

Título: Misto-Quente (Ham on Rye)
Autor: Charles Bukowski
Editora: L&PM
Ano: 2005
Número de páginas: 316


Por: Virgínia Fróes
De: Natal – RN
Email: virginia@revistafriday.com.br

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